O São João é mais do que uma festa no Nordeste: é um patrimônio cultural vivo, um elo entre passado e presente, um símbolo de identidade que atravessa gerações. No coração dessa celebração está o forró — ritmo nascido no sertão pernambucano, nos bailes populares do século XIX, e que se projetou nacionalmente a partir de obras como Forró na Roça (1937), de Manoel Queiróz e Xerém.
Sem forró, não existe São João — o que resta é uma descaracterização travestida de festa. Defender o forró não é saudosismo; é um ato de resistência cultural. É proteger um patrimônio que vem sendo, pouco a pouco, diluído por interesses comerciais.
O grande historiador potiguar Câmara Cascudo, explica que o termo “forró”, derivado de “forrobodó”, carrega a ideia de festa popular, de encontro coletivo, de energia viva — algo que ultrapassa qualquer rótulo comercial. É justamente esse sentido que hoje vem sendo esvaziado.
Ao longo do século XX, nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, os Três do Nordeste, e outros grandes nomes, transformaram o forró em uma linguagem universal. Suas canções narravam o cotidiano, a fé, a esperança e a resistência do povo nordestino, consolidando o ritmo como pilar do São João e símbolo de orgulho regional.
Apesar dessa riqueza histórica, o forró autêntico vem perdendo espaço.
Nos últimos anos, muitos festejos juninos passaram a ser ocupados por bandas que se autodenominam “forró”, mas que pouco preservam de sua essência. No lugar da poesia, da tradição e do respeito às raízes, surgem repertórios marcados pela vulgaridade, pela banalização das relações e por conteúdos que não dialogam com o espírito do São João — nem com sua origem familiar e comunitária.
Não se trata de rejeitar a inovação ou negar a evolução cultural. A música é, por natureza, dinâmica e diversa. O problema está no apagamento da tradição, na substituição de um patrimônio cultural por modismos descartáveis, impulsionados por interesses mercadológicos que utilizam o nome “forró” apenas como estratégia de venda.
Manter o São João autêntico não é retroceder — é honrar um legado. É garantir que as futuras gerações conheçam a força do xote, do baião, do xaxado e do arrasta-pé; que dancem ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba; que compreendam que essa festa nasceu das fogueiras, das quadrilhas, da fé e da alegria do povo.
O Nordeste precisa — e merece — um São João que respeite suas raízes. Que acolha novos ritmos, sim, mas sem perder sua essência, sem apagar a chama que Luiz Gonzaga acendeu e que ainda ilumina cada arraial.
Preservar o forró autêntico é preservar a própria identidade. É garantir que os festejos juninos continuem sendo, acima de tudo, uma celebração da cultura, da família, da memória e do orgulho nordestino.
Um povo que não cultiva suas raízes perde a própria identidade — e, sem identidade, não há história, nem presente, nem futuro. Não existe o novo sem o velho; é das bases que nascem as verdadeiras inovações.
Por isso, ao organizar festas juninas com recursos públicos, os gestores precisam assumir sua responsabilidade cultural. Promover diversidade musical é possível — e necessário —, mas nunca à custa do que nos define. Valorizar o forró, ao mesmo tempo em que se abre espaço para novas expressões, é garantir que a tradição permaneça viva, respeitada e celebrada.
Preservar a essência do São João é honrar o povo, fortalecer a cultura e assegurar que as próximas gerações conheçam — e se orgulhem — de suas raízes.
Tradição não se substitui: se preserva. Viva o São João. Viva a cultura nordestina.
Por Gilberto Dias.

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